Futebol é um jogo da vida maior do que nós

Os russos, como os brasileiros, encaram o futebol também como a reedição de dramas pessoais, sociais e políticos

Por gostar tanto de futebol acho que a grande magia do campo e do jogo é a mesma da História: está cheia de lições e de presságios. Em alguns casos, futebol diz mais sobre certos países do que eles mesmos admitem reconhecer – óbvio que isso só vale para as sociedades nas quais esse esporte é muito popular (confesso que pessoal e subjetivamente separo os países do mundo pelo critério “simpatia” em duas grandes categorias: os que gostam e os que não gostam de futebol).

Quem não vê as lições e presságios do 7 a 1 que tomamos da Alemanha em 2014 o faz por própria conta e risco, pois o que em parte constatamos em campo foi o triunfo da organização e preparação contra o desastre de se pendurar em ilusões (políticas inclusive). Mas mesmo preparação e organização, elementos que ajudam a entender em parte o sucesso econômico e militar de países, não são garantias de conquista da Copa. Senão o meticuloso Japão disputaria todas as finais contra a organizada Suíça.

Há uma óbvia correlação entre potência econômica e sucesso no campo do esporte, mas aqui é que entra a Rússia com suas excepcionais lições de História e condição humana. Acho que só mesmo grandes escritores (ou poetas, pintores, cineastas) conseguem capturar a “alma” de países e suas sociedades. Nelson Rodrigues, por exemplo, transformou a crônica sobre o futebol no retrato do caráter nacional brasileiro, com um impacto (até inconsciente) que perdura até hoje – boa parte do que discutimos na nossa profunda crise atual gira em torno da dúvida, diante do descalabro de corrupção e violência, se conseguimos de fato superar o complexo, ou seja, a condição de vira latas.

Não é atoa que todos interessados em entender a Rússia continuam lendo Leon Tolstoi (1828 – 1910) e seu “Guerra e Paz”, a formidável descrição de um inesquecível período da história mundial (por seu impacto em acontecimentos de muitas décadas seguintes), que foi a invasão comandada por Napoleão da Rússia em 1812. Claro que Tolstoi trata também de um aspecto que nós, amantes do futebol, conhecemos muito bem de cada jogo: a ideia de que esforço e vontade ajudam a superar a adversidade até mesmo aos 48 do segundo tempo, que o coletivo não é apenas a soma de indivíduos, mas que indivíduos excepcionais levam o coletivo a resultados excepcionais (ou a desastres também…).

O impacto desse fantástico escritor está sobretudo na ideia, tão arraigada na “alma” russa (mas não só) de que o indivíduo é pequeno diante da História, que as forças que movem e transformam o mundo a nossa volta estão além do nosso controle, até mesmo da nossa capacidade de compreensão, e que sorte (sim, sorte, acaso) tem um papel muito maior na evolução dos fatos do que nossa necessidade de segurança e conforto em acreditar em “leis” da história nos permite compreender. Daria para usar Tolstoi tranquilamente para descrever o futebol: pode-se antecipar o que vai acontecer, pode-se usar o passado como referência, mas o resultado sempre dependerá também do imponderável, daquilo que talvez só se torna claro e compreensível depois.

Fui credenciado como correspondente em Moscou entre 1991 e 1996 e sei que os russos, como os brasileiros, encaram o futebol também como a reedição de dramas pessoais, sociais e políticos que não ficam restritos às quatro linhas e seus personagens. Do mesmo jeito que nós brasileiros, os russos tem uma certa dose de “fatalismo” (Tolstoi foi acusado disso, aliás) de características quase religiosas. Sabem quase por instinto que a bola passa ou não passa da linha do gol por desígnios que , para muitos, nem vale a pena tentar entender. Nesse ponto, as almas de Brasil e Rússia (mas também de Alemanha, Itália, Argentina, entre outros) tocam-se e são tão parecidas, unidas por um jogo que contém valores e símbolos tão universais.

Fico imaginando Leon Tolstoi e Nelson Rodrigues assistindo a uma Copa e, melhor ainda, participando de uma mesa redonda. Acho que chegariam às mesmas conclusões. Futebol é um jogo da vida maior do que nós.

William Waack
10 de Junho de 2018 | 04h00

Ir para o link Publicado originalmente no jornal O Estado de S.Paulo de 10 de junho de 2018

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